Quando analisamos a estrutura do salmo 123, percebemos que ele é uma oração dividida em duas partes:
a) Nos versos 1-2 o salmista se coloca diante de Deus em atitude de reverência.
a) Nos versos 3-4 o salmista faz a oração propriamente dita, dividida em duas partes:
- O pedido por misericórdia (3)
- A justificativa do pedido (4)
O problema central do salmo é o sofrimento do salmista. Ele está sendo desprezado (3) e zombado (4). Provavelmente ele está em uma grande dificuldade e os seus inimigos estão se aproveitando desse momento para humilhá-lo. Além disso, ele engloba o seu grupo social nesta aflição (a família, a cidade ou, mais provavelmente a nação inteira).
O inimigo do salmista é apresentado como uma pessoa arrogante e soberba, e certamente está zombando da situação aflitiva do povo.
O desafio desse salmo consiste no fato de que e ele é curto demais e, por isso, poder-se-ía até estuda-lo do ponto de vista daquilo que ele não diz.
1) O salmo não diz qual a situação do povo do salmista (guerra, pragas, etc.)
2) O salmo não diz quem é o escarnecedor (chamado de arrogante e soberbo).
3) Principalmente, o salmo não diz o que o salmista espera que Deus faça: Se Deus deve mudar a situação do salmista e livrá-lo de seus sofrimentos ou somente livra-lo dos arrogantes zombadores (parece que a última alternativa tem mais base)
A melhor maneira de estudar o salmo é virando-o pelo avesso. Primeiro os vs 3-4 que apresentam a situação que motiva o salmo. É uma situação de completo desespero - “... sobremodo fartos” e “saturada de zombaria” (3,4), de modo que o salmista está a ponto de explodir. Vem daí a questão principal do salmo: como se colocar diante de Deus numa situação de completo desespero? E para responder a essa pergunta em uma só palavra: com reverência. A reverência é o sentimento básico do adorador que se aproxima de Deus para cultuá-lo e o norteador de todo o relacionamento com Deus.
Há um segredo, porém, em relação à reverência. Ela possui graus de intensidade que variam conforme o momento e a necessidade. Por exemplo, quando estamos trabalhando em frente a uma prensa de quinhentas toneladas e queremos adorar a Deus dirigindo-lhe uma palavra de louvor, não devemos nos desligar de nosso trabalho secular sob pena de perder um braço. Além disso, Deus não gostaria que nós nos desligássemos completamente do serviço cujo contrato que assinamos determinava que dedicaríamos aquelas horas para o patrão. Além disso, podemos ser pouco reverentes quando estamos assistindo televisão e vemos, por exemplo, uma reportagem na qual um indivíduo está sofrendo e em nosso coração nós oramos a Deus por ele. Nesses exemplos, como em muitos outros, Deus é adorado, mas nós não nos desligamos de nosso mundo secular.
Há entretanto o momento de adorar a Deus com o máximo de reverência. Geralmente os cultos dominicais são consagrados para isso. Podemos comparar a reverência ao relacionamento entre pai e filho. O pai sábio brinca de luta com seus filhos no tapete da sala e geralmente deixa os filhos vencerem a luta. Entretanto, nem os filhos, nem o pai pressupõem que o pai seja fraco. Aliás, o pai sábio sempre reservará um espaço de sua autoridade para o momento em que se tornar necessária uma palavra mais dura para o filho – por exemplo, quando o filho estiver fazendo algo que desagrada os valores da família e o pai ordenar a ele: “pare!”
Deus também quer ser tratado, assim como como nos trata, com amor, carinho e ternura em um relacionamento que, às vezes, admite brincadeiras e intimidades, mas às vezes exige respeito, temor e reverência. Se confiarmos demais na intimidade com Deus e começarmos a trata-lo como qualquer um, ele como Senhor há de colocar-nos em nosso lugar. É mais ou menos o que está acontecendo nesse salmo: Deus está dando um puxão de orelha para colocar o povo em seu lugar.
A reverência, portanto, é a base do relacionamento com Deus e será muito sadio se separarmos periodicamente um tempo para praticá-la, eventualmente no culto público. Mas em que consiste essa reverência em seu limite máximo?
1) Não se amarra a Deus. Não se diz a Ele o que fazer. O salmista não pede nada especificamente, apenas que Deus tenha misericórdia, mais ou menos como o centurião de Lucas 7 que, não querendo “amarrar” a Jesus ou dizer ao Mestre o que fazer, disse simplesmente: “não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; dize apenas uma palavra e meu servo será curado”.
2) A reverência é o que separa Deus – o adorado, do homem – o adorador. O olhar dos vs 1,2 mostram Deus como o outro. Deus não está aqui. Ele está lá: “A ti que habitas nos céus..”.. Na figura do servo e do Senhor, o servo está numa posição diferente do Senhor. Deus não é nosso amigão; Ele é o Senhor diante de quem nos curvamos e a quem servimos.
3) O olhar fixo em Deus. Nesse nível de reverência não se pode orar e comer pipoca ao mesmo tempo. É estranho que muitas pessoas cheguem atrasadas ao culto, ou que saiam do culto por qualquer motivo tal como beber água ou ir ao banheiro. Se estamos dedicando o tempo a Deus, então não podemos fazer outra coisa senão adorar a Deus. Não devemos esquecer que essa reverência é o padrão de nossa vida cristã.
Infelizmente nossa geração tem levantado adoradores absolutamente desrespeitosos para com Deus. E esse respeito é uma das marcas do verdadeiro adorador, aquele a quem Deus procura para adorá-lo. Tratemos o culto com o respeito que ele merece.

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